A pandemia partiu o Europeu de sub-21 em dois. De 25 a 31 deste mês, na Hungria e Eslovénia, Portugal discute com Croácia, Inglaterra e Suíça uma vaga na fase a eliminar, em maio. Em entrevista aos três jornais desportivos, o selecionador Rui Jorge olha apenas para março, explica a convocatória e põe água na fervura na euforia.


– Esta é a terceira fase final de Europeu de Rui Jorge, depois de 2015 e 2017. Fazer esta convocatória foi difícil? As escolhas foram complicadas?

 

– Sim, muito complicadas. Em termos de quantidade de jogadores para serem selecionáveis, e a cumprirem os requisitos que pretendemos, tínhamos um número bastante grande. Uns estiveram no último fim de semana ainda em equação. Custa deixá-los de fora. Alguns fizeram parte desta caminhada, mas é a nossa função enquanto treinadores e tem de ser feito.

 

– A fase final do Europeu está dividida em duas fases, primeira agora em março, fase a eliminar em maio. Não há tempo para treinar, é só jogar. A convocatória foi feita com base no trabalho e nas relações já existentes na equipa?

 

– Parte do conceito passa por aí e parte de algumas escolhas também passa por aí. Não escolhemos por estar a dividir em dois, isso não nos diz muito, pois é uma fase de cada vez. Temos pouco tempo comparativamente ao que costuma ser uma fase final. Isso transtorna a preparação, não apenas a de Portugal, mas a de todas as equipas.

– Leva 23 de um lote com 30 jogadores. Falou com alguns jogadores que ficaram de fora?

– Não dá para o fazer. A lei do futebol é esta. Se estiver com o jogador, posso abordar a situação, mas eles sabem que são decisões que tenho de tomar. Dou o caso concreto do [Rúben] Vinagre. Ele sabe o que me custa em termos humanos deixá-lo de fora. Participou na caminhada, teve azar no jogo de Gibraltar, lesionou-se no início. Veio para Portugal para jogar com mais assiduidade. Na cabeça dele, pensa que poderia ser convocado. Para ser ele, não seria o Tomás Tavares, o Dalot ou o Thierry [Correia]. São decisões do treinador, não tem de pedir desculpa por elas, tem de as assumir enquanto líder de um grupo, embora lhe custe em termos humanos.

– Em relação a sistema tático, com Jota, Trincão e Francisco Conceição, o 4x3x3 ou 4x2x3x1 são as melhores opções?

– Pode ser. Na qualificação utilizámos maioritariamente o 4x3x3. A esses nomes juntaria o Rafael Leão, desequilibra muito na esquerda. Mas não quereria fechar isso também. No 4x4x2 losango, que utilizamos com frequência, qualquer um dos dois jogadores da frente, pela nossa forma de jogar, muitas vezes encontra-se em situação de jogar junto à linha contra centrais. Pela movimentação que fazem, à largura, encontram-se a jogar na posição em que, normalmente, o extremo joga, contra um adversário que, normalmente, um extremo não joga, que é um central, com mais dificuldades a defender naquela posição. O Jota [a entrevista foi feita antes de divulgada a lesão de Jota] já jogou connosco assim, também como médio interior do losango, poderão também fazer movimentos de profundidade onde a mais-valia no um contra um pode fazer sentido. 4x3x3 será o sistema que está na minha cabeça, o 4x4x2 também está.

– Vê Pedro Gonçalves como médio ou avançado?

– Quando os jogadores vêm pela primeira vez, faço-lhes uma pergunta: qual é o lugar onde podes ajudar mais a equipa? Sei qual foi o que o Pedro me disse, mas vou ao que me interessa, o que penso para ele. É um jogador com cultura tática acima da média, com características que lhe permitem desempenhar várias posições bem, porque sabe ler o jogo. Num 4x3x3, sobre a ala ou como médio interior, resultará. Se optarmos por dois pivôs defensivos e um jogador mais à frente, preferia vê-lo mais à frente do que ser um dos dois defensivos. Apesar de também o fazer bem. É transversal a muitos jogadores que escolho. Se falar do Bragança é a mesma coisa. Se falar do Gedson ou do Vitinha, vou dizer a mesma coisa. São jogadores que percebem o jogo, bons com bola e, quando assim é, a possibilidade de fazer mais posições torna-se mais clara para todos.

– Em relação aos adversários, quais os pontos fortes de Croácia, Inglaterra e Suíça?

– A Croácia é muito semelhante a Portugal. Vive do talento dos jogadores, da relação com bola. Joga em 4x3x3, jogadores inteligentes, posicionam-se bem, têm menos jogadores de desequilíbrio individual em relação à nossa equipa, mas têm jogadores de relacionamento com bola, com capacidade de não perder bola e de passe longo. Inglaterra é mais vertical, muitos jogadores rápidos, que individualmente são capazes de decidir, com grande capacidade de finalização. A Suíça é uma equipa compacta, 4x4x2 clássico, defende muito bem. Tem um jogador [Zeqiri] que faz muitos golos. São difíceis de ultrapassar, não tão vistosos no jogo, não entusiasmante, mas difícil.

– Falando no plano teórico, parece Portugal, Inglaterra e Croácia a lutarem pelo apuramento e a Suíça como outsider. É fundamental vencer o primeiro jogo?

– Já me fizeram essa pergunta, mas colocavam a Croácia como outsider. Interessa muito pouco. Essa avaliação é superficial, olhamos para os números e depreendemos. Se formos só para os números, a Suíça só perdeu um jogo com a França, ganhou o outro e venceu os restantes. Acreditem mais no que disse em relação às equipas do que nos números normais. Temos vários jogos de observação e acreditamos que vão cair muito no que dissemos. Se estivermos ao nosso melhor nível, temos capacidade para chegar à próxima fase, mas temos de estar ao nosso melhor nível. Sou tão repetitivo nisto, para vocês deve ser aborrecido estar sempre a ouvir isto, mas não há outra forma de pensar.

– Sente essa necessidade de baixar expectativas?

– Não estou a baixar expectativas.

– Não serve de barómetro, mas, nas redes sociais, os melhores plantéis apontados eram os de Portugal e França…

– Não conhecemos os outros. Conhecemos a nossa realidade e são ótimos jogadores. Temos ótimos jogadores. Estão no Milan e no Valência, já estiveram no Manchester United. Mas os outros também estão nesses clubes. Não baixo as expectativas. Podem ser importantes para quem está de fora, para nós de pouco servem. Sou o contrário. Se falarem com os meus jogadores, eles dirão isso. Sou incapaz de olhar para uma equipa que não tem a nossa qualidade, e dizer que aquela equipa é tremenda. Amanhã aparecem as equipas boas e digo isso aos jogadores? Se não estivermos a 100 por cento contra Gibraltar é uma coisa, se não estivermos a cem por cento contra a Suíça é outra coisa. Queria fugir disso. As pessoas levam isto para falta de ambição. A prioridade é estudar bem os adversários, perceber os pontos fortes. Atenção à profundidade de Inglaterra, são velocíssimos, e não baixar expectativas para se a coisa correr mal…Não é intenção. Já dei exemplos. Fase final com Espanha [Euro-2017, derrota por 1-3], fizemos muitas coisas bem, Espanha acabou por ganhar. Nada a fazer. Não seremos a melhor equipa, mas vamos tentar sê-lo.

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Rui Jorge em entrevista: da convocatória às expectativas para o Europeu
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