O Rayo Vallecano volta a ser clube de Liga, a sua 19.ª presença no escalão maior, depois de uma emocionante subida conseguida no play-off de promoção, sendo uma das equipas que teve época mais longa na Europa, competindo desde 13 de setembro a 20 de junho. Acabou em beleza, vencendo em Girona e virando um resultado desfavorável levado de Vallecas para a Catalunha.

O bairro operário de Madrid volta a desfrutar de uma proeza futebolística, conseguindo o Rayo com os alicerces modestos mas firmes, adeptos comprometidos com a equipa e um clube que devolve a cumplicidade de fora com inalienáveis valores, verdadeiros milagres, superando históricos do futebol espanhol e nova oportunidade de medir forças os mais poderosos. O Rayo é um clube de esquerda pelo seu contexto histórico, identidade migratória com fortes fluxos de população de toda a América Latina, bastião de resistência contra a xenofobia e também pela massa adepta que congrega, particularmente os Bukaneros conhecidos pelos seus gritos anti-fascistas. Nem de propósito, foram eles, que vetaram a contratação do ucraniano Zozulya, ainda agora apontado ao Estoril. O êxito da subida em 2020/21 foi feito com a assinatura do basco Andoni Iraola, um ex-lateral do Athletic que já dá cartas como treinador. Deixou de jogar na MLS e começou a treinar no Chipre. Ao serviço do Rayo, no seu terceiro clube, proclamou a aura de vencedor.

 

«As coisas saíram bem, é verdade que ainda faz pouco tempo que deixei de jogar. Estou feliz, realizado também, mas consciente que o futebol não tem memória, quando começar a jornada 1 de La Liga temos de continuar a demonstrar algo, porque o futebol vive de resultados imediatos. Não podemos fazer planos, nem a médio prazo. É tudo a curto prazo», ressalva o antigo internacional espanhol, agora com 39 anos. Das épocas vividas no Athletic, dominado por um sentimento de pertença, ao humilde mas carismático Rayo…Iraola não podia estar mais amparado de devoção e orgulho que germinam nos dois clubes.

 

«O Rayo é realmente muito especial, um clube de bairro, todos nos sentimos orgulhosos por representar o que é Vallecas. Dentro de cada adepto do Rayo existe essa razão maior de pertença. Estão muito contentes. O que se passa aqui é, de certo modo, parecido ao que sentimos com o Athletic, onde há o valor acrescentando de jogarem só bascos. Mas são clubes que geram proximidade com o futebolista e há essa similitude entre Athletic e Rayo», reconhece Iraola, tecendo a sua leitura da hercúlea cavalgada em 2020/21.

 

«Não foi uma temporada fácil, a 2.ª Divisão é muito dura com muitos emblemas com peso. O Rayo chegou muito bem à reta final e conseguimos subir no play-off. É um trajeto difícil, agora devemos ser os favoritos para descer. É assim que isto é visto de fora. Mas estou convencido que somos uma equipa que vai dar guerra, pela boa base que ficou e vão chegar vários jogadores com vontade de se estrearem na categoria maior», garante o jovem técnico basco.

 

«Somos a equipa que menos descanso teve, é claro. Foram três semanas de férias, mas não vai ser problema, há tempo suficiente para aparecermos como queremos. Não me preocupa o aspeto físico, não tivemos tempo para perder forma, estou mais preocupado pela composição do plantel, tempo curo para o desenhar, já falta pouco para a época começar e ainda há muito trabalho nesse sentido. Não tenho dúvidas que até 31 de agosto vamos ter plantel suficientemente competitivo», sustenta Iraola, desejoso de travar uma tradição de sobe e desce do clube de Vallecas.

 

«Encantar-me-ia ajudar no objetivo de estabilizar o Rayo na La Liga. Podemos consegui-lo, mas passo a passo. O primeiro ano é normalmente mais complicado, há plantéis muito potentes, que levam anos a este nível» regista, marcando a força maior que emerge em Vallecas.

«O Rayo tem uma estrutura pequena mas, por outro lado, tem um apoio social que é muito importante, que nos ajuda imenso. É isso que marca o Rayo como clube de Primeira. É um clube que se diferencia pelo seu segmento social e pelos adeptos que reúne», observa Iraola.

 

«Bebé pode ser vital»


Andoni Iraola não tem dúvidas que o caminho de reafirmação do Rayo em La Liga passa por premiar quem ajudou a selar este regresso ao universo maior, devolvendo ao clube de Vallecas o prazer de medir forças com os poderosos da cidade: Real Madrid e Atlético Madrid.

«A grande maioria dos jogadores que conseguiram esta promoção merecem desfrutar da Primeira Divisão. Mas é claro que precisámos de melhorar o plantel para competir ao melhor nível. Há 8 ou 9 jogadores que têm de chegar para ficarmos competitivos como queremos», ilustra o técnico, louvando o papel de Bebé, o avançado português, de 31 anos, já com uma longa história no Rayo. Acabou por fazer 29 jogos e assinar 7 golos na última época.

 

«Bebé foi fundamental para nós na segunda volta e no final de temporada. Veio de uma lesão muito complicada ao nível dos ligamentos, esteve fora quase um ano. Vivia uma situação incerta quando chegamos, não sabia se podia reaparecer a um nível. Mas provou que sim, teve um rendimento muito forte na segunda volta e acreditámos muito que pode voltar aa ser um jogador vital para nós», perspetiva.

«Sofres mais do que desfrutas»

 

Num percurso muito influenciado por Ernesto Valverde, Iraola faz curiosa introspeção. «O mais bonito é que o futebol está feito para o futebolista, mas chega um momento que a idade não te permite mais. Tens de procurar outras opções e percebes que face aos anos de futebol tens de ver, nesse contexto, a oportunidade de acrescentares algo à sociedade e ao futebol. Nunca me deram inveja os treinadores, afinal não é profissão mais desejada, sofres mais do que desfrutas. Mas é algo que fica em nós», confessa. «Não podes fazer planos, dependes dos resultados, é difícil veres essa estabilidade ou teres tempo de refletir nisso. Levo este meu trajeto à pouco tempo, só me compete melhorar como treinador e, sem dúvida, que o desafio de treinar o Rayo na Primeira é transcendente», remata.

«Vamos dar guerra», Iraola fala do regresso do Rayo à La Liga
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